Animais

Baleias-jubarte retornam em força ao Brasil e população se aproxima de níveis pré-industriais

Monitoramento aéreo de 20 anos confirma recuperação notável: 25 mil jubartes agora visitam a costa brasileira, número próximo ao de dois séculos atrás.

24 de dezembro de 2022

Baleias-jubarte retornam em força ao Brasil e população se aproxima de níveis pré-industriais
Foto: Christopher.Michel (BY) via Openverse

Um marco de sucesso ambiental foi alcançado nas águas do Brasil. O último levantamento aéreo realizado pelo Instituto Baleia Jubarte revelou que a população desses majestosos mamíferos marinhos chegou a aproximadamente 25 mil indivíduos na temporada de 2022 — um feito extraordinário que marca a recuperação de uma espécie que esteve à beira do colapso. O número atual é notavelmente próximo ao que existia há dois séculos, quando entre 27 mil e 30 mil baleias jubartes percorriam as águas territoriais brasileiras, antes da era da caça industrial devastadora.

O censo aéreo, realizado em agosto de 2022, cobriu uma extensão de 6.200 quilômetros de litoral, percorrendo desde a divisa entre Ceará e Rio Grande do Norte até ao litoral norte de São Paulo. Essa operação minuciosa, executada em parceria com a Socioambiental e financiada pela Veracel Celulose e Petrobras, utilizou aeronaves especializadas para registrar os animais tanto nas águas costeiras quanto em áreas abertas com até 500 metros de profundidade. O monitoramento representou o culminar de duas décadas de observação sistemática — desde 2003, quando foram contabilizadas apenas 3.660 jubartes, demonstrando uma trajetória de recuperação notável ao longo de duas décadas.

A história dessa recuperação é um retrato dos efeitos devastadores da exploração humana e, ao mesmo tempo, da capacidade de regeneração quando há proteção efetiva. As jubartes foram severamente caçadas durante séculos, reduzindo uma população de dezenas de milhares para apenas alguns milhares de indivíduos. O Brasil foi um dos últimos países a tomar medidas concretas: a caça foi proibida nacionalmente apenas em 1987, depois de séculos de perseguição. No entanto, uma vez protegidas, a espécie demonstrou notável capacidade de recuperação, retornando ao país em números crescentes a cada triênio, quando o monitoramento é realizado.

O significado dessa recuperação vai além dos números. A baleia jubarte é uma espécie migratória que traz consigo uma história de resiliência e conexão com ecossistemas globais. Entre os meses de junho e novembro, esses animais visitam o litoral brasileiro, com preferência especial pela região de Abrolhos, no sul da Bahia, que funciona como importante maternidade e berçário. Ali, em águas mais protegidas e recifes naturais, as fêmeas trazem seus filhotes para o desenvolvimento inicial, permitindo que os recém-nascidos ganhem massa corporal e força muscular necessárias para a longa migração até às águas frias da Antártida, onde se alimentam durante meses. Enrico Marcovaldi, um dos fundadores do Projeto Baleia Jubarte, expressou a emoção da equipe ao constatar a recuperação: “Depois de décadas de atuação na proteção das baleias, ver essa população quase totalmente recuperada dá uma enorme alegria”, destacando que o trabalho não termina, pois sempre há risco de novas ameaças causadas por atividades humanas.

O monitoramento aéreo de longo prazo, descrito por especialistas como o estudo mais extenso já realizado com uma população de baleias no Brasil, permitiu não apenas contar os animais, mas mapear como a espécie reocupava progressivamente as águas territoriais brasileiras. Esses dados científicos tiveram impacto direto em políticas de proteção. Em 2014, o Ministério do Meio Ambiente retirou a baleia jubarte da Lista Nacional de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção, reconhecimento que refletiu diretamente os resultados positivos desse monitoramento contínuo. Além disso, o mapeamento de densidade — que identifica exatamente onde e quando os maiores agrupamentos de jubartes estão presentes — permitiu ajustar rotas de navegação de barcaças de transporte e reduzir significativamente o risco de colisões acidentais.

A recuperação da jubarte também ilustra como a proteção legal, quando apoiada por ciência sólida e financiamento adequado, pode reverter danos ambientais profundos. O ciclo reprodutivo desses animais é rigorosamente timetabled pelas estações: os que vêm apenas para acasalar e ainda não têm filhotes começam a migrar em outubro, enquanto os que trouxeram descendentes permanecem até novembro, garantindo que cada filhote tenha tempo suficiente para desenvolver a camada de gordura que o protegerá nas águas geladas do Antártico. Essa sincronização precisa depende de um ambiente marinho estável e de ausência de ameaças predatórias — exatamente o que a proteção legal tem proporcionado.

O resultado desse trabalho de proteção representa uma lição poderosa: o que parecia perdido pode ser recuperado. A trajetória da baleia jubarte, de uma população reduzida a poucos milhares para 25 mil indivíduos em duas décadas, mostra que quando há comprometimento científico, vontade política e recursos financeiros, a natureza responde. Para o Brasil, essa recuperação não é apenas um feito ecológico, mas um sinal de que o país possui capacidade de inverter processos de extinção — algo particularmente relevante em um momento em que tantas outras espécies enfrentam ameaças cada vez maiores.

Fonte: CNN Brasil ↗
Este é um resumo original. Leia a matéria completa no veículo de origem.
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