Baltimore revoluciona atendimento a crises: 911 oferece alternativas além da polícia
Cidade americana expande serviços de emergência para atender crises de saúde mental, moradia e dependência química sem envolver forças de segurança.

Baltimore está transformando a forma como responde a chamadas de emergência, criando um modelo inovador que vai muito além da abordagem tradicional de polícia e ambulância. A iniciativa, financiada por recursos provenientes de acordos legais relacionados à crise de opioides, representa um avanço significativo na forma como sociedades podem lidar com situações de crise de maneira mais humanizada e eficaz.
Quando alguém liga para o 911 em Baltimore, equipes móveis especializadas conseguem redirecionar chamadas de crise de saúde mental para profissionais de saúde mental em vez de enviar policiais. Agora, esse modelo se expande para cobrir um espectro muito mais amplo de necessidades humanas. A prefeitura está estruturando um serviço abrangente que identifica qual é o verdadeiro problema por trás da chamada e direciona o apoio adequado, seja orientação habitacional, assistência jurídica ou conexão com outros recursos comunitários.
O pano de fundo dessa transformação é o reconhecimento de que muitas situações que terminam no sistema de justiça criminal poderiam ser resolvidas de forma mais humanitária e eficiente. Pessoas em situação de rua, aquelas enfrentando dependência química ou crises emocionais frequentemente são presas ou criminalizadas não porque cometeram crimes graves, mas porque o sistema de emergência disponível não tinha outras opções. Ao enviar um policial para uma crise de saúde mental ou para alguém precisando de abrigo, cria-se um ciclo que alimenta o encarceramento em massa sem resolver os verdadeiros problemas.
A inteligência dessa abordagem está em reconhecer que nem toda emergência é uma emergência policial. Um despachante bem treinado, armado com informações sobre recursos comunitários, pode fazer perguntas diagnósticas e conectar a pessoa com exatamente o que ela precisa. Isso reduz a violência ao evitar confrontos desnecessários entre pessoas em crise e agentes da lei. Simultaneamente, resolve problemas reais: quem precisa de moradia acessa programas habitacionais; quem enfrenta problemas legais consegue assistência jurídica; quem está em crise emocional fala com um profissional de saúde mental.
O financiamento através de acordos sobre opioides é particularmente apropriado. A crise de dependência de opioides devastou comunidades em todo o país, e frequentemente aqueles que sofrem com vício acabam no sistema de justiça criminal. Usar recursos desses acordos para construir infraestrutura de resposta humanitária é uma forma de reparação que trata o problema na raiz em vez de apenas punir as vítimas.
Para o contexto brasileiro, esse modelo oferece uma lição valiosa. Embora o Brasil tenha estruturas diferentes de emergência, o princípio aplica-se: muitos problemas que chegam às ruas e delegacias poderiam ser evitados com serviços especializados de resposta a crises. A sobrecarga de polícia fazendo trabalho assistencial, de hospitais gerais atendendo crises psicóticas sem infraestrutura adequada, de pessoas em situação de rua que precisam de abrigo — tudo reflete a ausência de um sistema de resposta integrado e humanizado como o que Baltimore está construindo.
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