Brasil desperta interesse mundial com seus supercentenários: o que a ciência está descobrindo
Pesquisadores brasileiros revelam que o país tem uma das maiores concentrações de pessoas com mais de 110 anos do mundo, e os segredos não envolvem bilhões em tecnologia.

Enquanto magnatas do Vale do Silício investem fortunas em tratamentos anti-envelhecimento, uma descoberta silenciosa está acontecendo no Brasil: o país abriga uma das maiores concentrações de supercentenários do planeta – pessoas que vivem além dos 110 anos. A constatação desafia tudo o que sabemos sobre longevidade e sugere que a resposta para uma vida extraordinariamente longa pode estar bem mais próxima de casa do que imaginamos, longe dos laboratórios high-tech e dos protocolos extremos de biohacking.
Essa realidade impressionante vem chamando atenção de pesquisadores há mais de duas décadas. A professora Mayana Zatz, da Universidade de São Paulo, lidera um estudo abrangente que reuniu dados de quase 200 centenários brasileiros, incluindo mais de 20 supercentenários. A pesquisa revelou padrões fascinantes que desafiam o conhecimento convencional sobre envelhecimento. Um dos achados mais notáveis é a predominância feminina: aproximadamente 70% dos supercentenários brasileiros são mulheres. Além disso, uma característica física chama atenção – a maioria dessas mulheres é notavelmente de baixa estatura, o que pode sugerir um vínculo biológico entre corpo menor, menor demanda energética e maior longevidade.
O contexto genético do Brasil oferece uma pista importante para entender esse fenômeno. A população brasileira moderna é uma das mais geneticamente diversas do mundo, resultado de séculos de cruzamentos entre povos indígenas, europeus, africanos e asiáticos. A colonização portuguesa a partir do século XVI trouxe milhões de africanos escravizados; depois vieram ondas de imigrantes da Europa meridional – italianos, espanhóis, alemães – além de uma das maiores diásporas japonesas fora do Japão. Essa mistura criou um mosaico genético extraordinariamente rico, no qual indivíduos herdam traços de múltiplas ancestralidades. A hipótese de Zatz é que essa diversidade genética pode ser a chave: diferentes populações carregam variantes genéticas protetoras distintas, e em uma pessoa altamente miscigenada, essas proteções podem se acumular, aumentando as chances de resilência celular, força imunológica e capacidade de reparo.
O que torna a história ainda mais notável é que os supercentenários brasileiros não seguem receitas rigorosas. Eles não mantêm dietas estritas, não evitam necessariamente o álcool e muitos vivem – ou viveram – em regiões remotas ou carentes, longe do acesso regular a medicina moderna. Sister Inah, que viveu até os 116 anos e foi considerada a pessoa mais velha do mundo em um momento, comia de tudo, com exceção de bananas. Milton chegou aos 108 anos e tinha o hábito de beber uísque todos os dias de manhã, sempre acompanhado de um cafezinho. Laura, hoje com 107 anos, começou a nadar apenas aos 70 e se tornou campeã aos 100, além de desfrutar de uma caipirinha diariamente durante o almoço. Essas histórias sugerem que a longevidade extraordinária no Brasil não resulta de disciplina monástica, mas de algo mais orgânico e menos controlado.
Um fator crucial que emerge dos estudos é a resiliência adquirida através da seleção natural ambiental. Em muitas regiões rurais brasileiras, famílias historicamente tiveram 10 ou 12 filhos, mas apenas alguns chegavam à idade adulta. Aqueles que sobreviviam já carregavam uma robustez biológica inata. Acrescente-se a isso uma infância marcada pela ausência de alimentos ultraprocessados e uma vida inteira de movimento físico – caminhadas longas, trabalho manual – e emerge um quadro complexo de fatores que transcendem o meramente genético. Os pesquisadores concentram especial atenção naqueles que vivem longe de centros de saúde: “são os que sobreviveram sem vacinas, sem tratamento médico. Já eram os mais fortes desde o início”, explica Zatz. Essa perspectiva inverte a narrativa tradicional de que longevidade depende de acesso a healthcare de ponta; em muitos casos brasileiros, a adaptação a condições adversas pode ter consolidado uma população naturalmente mais resistente.
O aspecto familiar também desempenha um papel, embora não seja determinante. Aproximadamente 20 a 30% dos centenários no estudo possuem parentes que também atingem idades extremas. Laura exemplifica isso: duas de suas irmãs ultrapassam os 100 anos e uma tia chegou aos 110. Nesses casos, a genética de longevidade é claramente transmitida e agora é alvo de análise minuciosa pela equipe de Zatz. No entanto, a ausência de histórico familiar em cerca de 70% dos casos reforça que múltiplos caminhos levam à longevidade extraordinária.
A relevância dessa pesquisa vai além da curiosidade científica. Enquanto bilionários como Bryan Johnson submetem-se a regimes extremos – testes sanguíneos contínuos, suplementação intensiva, dietas rigorosas e sono controlado – em busca de uma vida mais longa, o Brasil oferece uma lição diferente: a de que simplicidade, diversidade genética e um tipo de resiliência forjada ao longo de gerações podem ser tão ou mais eficazes. A pesquisa de Zatz continua mapeando essas descobertas, analisando ancestralidade em relação à longevidade e buscando identificar o que ela chama de “genes protetores”. Mas o estudo também deixa claro que não há um único modelo ou fórmula universal. O que funciona para Laura pode não funcionar para Sister Inah; o que sustentou Milton pode não se aplicar ao próximo supercentenário.
Esse trabalho também ilumina uma realidade frequentemente invisibilizada: em um país marcado por desigualdade, acesso desigual a saúde e volatilidade econômica, existem comunidades que produzem alguns dos seres humanos mais longevos do mundo. A pesquisa promete não apenas expandir nosso entendimento sobre envelhecimento, mas também destacar a resiliência e a força de populações historicamente marginalizadas. À medida que Zatz e sua equipe prosseguem coletando dados e refinando análises, o Brasil emerge não como um caso anômalo, mas como um laboratório vivo – muito mais complexo e humano do que qualquer laboratório de silício – onde a vida extraordinária não é um projeto milionário, mas simplesmente a consequência de história, genes, movimento e, talvez, um pouco de caipirinha.