Brasil sai novamente do Mapa da Fome com menos de 2,5% da população subalimentada
Relatório da ONU mostra que o país reduziu drasticamente a fome grave e recuperou-se em poucos anos com políticas de proteção social e inclusão produtiva.

O Brasil conquistou um marco importante na luta contra a fome. Segundo o relatório mais recente da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), divulgado em 2025, o país agora apresenta menos de 2,5% de sua população em situação de subalimentação — o critério técnico que define a saída do chamado Mapa da Fome das Nações Unidas. Essa recuperação é particularmente significativa porque mostra que retrocessos em políticas sociais podem ser revertidos em tempo relativamente curto, desde que exista vontade política e coordenação entre os diferentes níveis de governo.
A trajetória brasileira nessa questão é emblemática. O país havia saído do Mapa da Fome em 2014, após mais de dez anos de investimentos sistemáticos em segurança alimentar e redes de proteção social. Porém, mudanças nas prioridades governamentais e os impactos da pandemia de Covid-19 fizeram com que o Brasil retornasse ao mapa em 2021, evidenciando a fragilidade dessas conquistas quando o apoio institucional diminui. A recuperação que agora se consolida demonstra que a situação é reversível: reativando políticas adequadas e contando com participação social ativa, é possível tirar milhões de pessoas dessa condição em poucos anos.
Os números refletem essa transformação de forma impressionante. Entre 2021 e 2023, havia 6,6% da população brasileira em situação de insegurança alimentar grave — ou seja, pessoas que enfrentavam períodos de fome real. No período de 2022 a 2024, esse percentual caiu para 3,4%, representando aproximadamente 7 milhões de pessoas que deixaram essa condição vulnerável. Essa redução ocorreu em paralelo a políticas de geração de emprego e renda, não apenas de assistência. Em 2024, a renda do trabalho dos brasileiros mais pobres cresceu 10,7%, levando muitas famílias a sair voluntariamente dos programas de transferência de renda por terem conquistado estabilidade econômica.
O processo de recuperação foi sustentado por um conjunto articulado de ações. Desde 2023, o Brasil reativou seu Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional e restaurou o papel do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, garantindo participação robusta da sociedade civil nas decisões. Programas como o de Aquisição de Alimentos, que conecta pequenos produtores ao mercado, foram expandidos. A alimentação escolar foi reforçada, e a agricultura familiar recebeu maior valorização e financiamento. Essas iniciativas não apenas distribuem alimentos, mas criam cadeias de produção e consumo que fortalecem economias locais.
Um dado relevante mostra a mudança de paradigma: dos 1,7 milhão de empregos formais gerados no Brasil em 2024, 98,8% foram preenchidos por pessoas cadastradas no Cadastro Único para Programas Sociais — aquelas historicamente excluídas do mercado de trabalho. Isso indica que a estratégia de inclusão produtiva está funcionando, transformando beneficiários de programas sociais em trabalhadores ativos. Paralelamente, políticas de controle inflacionário ajudaram a manter os preços dos alimentos mais acessíveis, reduzindo a pressão sobre os orçamentos domésticos mais limitados.
O Brasil também passou a reconhecer e enfrentar um desafio frequentemente invisibilizado: a urbanização da fome. Mais da metade das famílias brasileiras em risco grave de insegurança alimentar agora vivem em cidades com mais de 100 mil habitantes, não em zonas rurais. Para responder a isso, o país ampliou cozinhas solidárias e bancos de alimentos, promoveu agricultura urbana e trabalhou para melhorar ambientes alimentares saudáveis nos centros urbanos. A iniciativa Alimenta Cidades tornou-se prioritária, reconhecendo que a fome nas metrópoles exige soluções diferentes das aplicadas em outras regiões.
Ainda assim, o relatório da FAO aponta um desafio que permanece: a qualidade nutricional. Embora o Brasil tenha resolvido o problema da escassez de alimentos para a maioria, o custo de uma dieta verdadeiramente saudável continua elevado. Em 2024, uma alimentação balanceada custava em média 4,69 dólares por pessoa ao dia no Brasil — ligeiramente acima da média global de 4,46 dólares. Isso significa que muitas famílias conseguem se alimentar, mas ainda lutam para acessar alimentos nutritivos de qualidade. Essa questão aponta para a necessidade de trabalhar educação alimentar e políticas que tornem alimentos saudáveis mais acessíveis economicamente.
A experiência brasileira de recuperação oferece lições importantes. O país demonstra que combater a fome transcende simplesmente fornecer comida: exige políticas públicas coerentes, vontade política sustentada e engajamento genuíno da sociedade civil. Sair do Mapa da Fome não é apenas um número em um relatório internacional, mas a reafirmação de um compromisso nacional com direitos humanos fundamentais e dignidade. Além disso, o Brasil tem buscado compartilhar essa experiência globalmente. Durante sua presidência do G20, o país lançou a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, buscando fortalecer a cooperação internacional e mobilizar recursos para nações ainda mais afetadas por essas crises. O exemplo brasileiro mostra que, mesmo diante de desafios econômicos complexos, é possível avançar significativamente rumo a um futuro em que segurança alimentar seja realidade para todas as pessoas.