Ciência

Cientistas desenvolvem alface geneticamente modificada que produz proteína da carne

Pesquisadores criam alface e tabaco modificados capazes de produzir mioglobina, proteína animal que dá cor, sabor e ferro à carne, abrindo caminho para alimentos mais sustentáveis.

07 de agosto de 2026

Cientistas desenvolvem alface geneticamente modificada que produz proteína da carne
Foto: U.S. Army Combat Capabilities Development Command (BY) via Openverse

Um avanço significativo na busca por alternativas alimentares mais sustentáveis acaba de sair dos laboratórios da Imperial College de Londres. Pesquisadores conseguiram criar plantas de alface e tabaco geneticamente modificadas que produzem mioglobina, a proteína responsável pela cor vermelha, sabor característico e teor de ferro encontrado naturalmente na carne. O resultado, publicado na revista científica Frontiers in Plant Science, marca um passo importante na transformação de vegetais em verdadeiras “biofábricas” capazes de sintetizar componentes animais, oferecendo esperança para quem busca reduzir o consumo de produtos de origem animal sem abrir mão de nutrientes essenciais.

O processo utilizado pelos cientistas é conhecido como biolística, uma técnica sofisticada que funciona como um bombardeio microscópico controlado. Os pesquisadores literalmente “atiraram” em estruturas chamadas cloroplastos — os compartimentos das células vegetais onde ocorre a fotossíntese — usando partículas minúsculas revestidas com versões otimizadas do gene de mioglobina oriundo de suínos. Após confirmar que o material genético foi inserido corretamente no DNA das plantas, os cientistas as cultivaram até a fase adulta e colheram as sementes. As análises confirmaram que o gene da mioglobina foi transmitido com sucesso para a próxima geração, demonstrando a estabilidade da modificação genética.

Um dos aspectos mais impressionantes da pesquisa é que as plantas modificadas permaneceram saudáveis, férteis e sem qualquer comprometimento significativo de sua capacidade fotossintética, apesar de agora produzirem uma proteína animal. A alface desenvolvida conseguiu produzir cerca de 810 miligramas de mioglobina por quilograma de peso seco das folhas, enquanto o tabaco atingiu 800 miligramas por quilograma. Embora esses valores sejam aproximadamente dez vezes menores que os encontrados no tecido muscular animal, os pesquisadores apontam que a extraordinária produtividade das culturas vegetais poderia compensar essa diferença através de maiores rendimentos por hectare.

A relevância dessa descoberta transcende o laboratório quando consideramos o contexto global de sustentabilidade. A criação de proteína animal através de plantas geneticamente modificadas exigiria significativamente menos água, menos terra e geraria menores emissões de gases de efeito estufa em comparação com a pecuária tradicional. Para o Brasil, um país com forte tradição agrícola e crescente pressão ambiental relacionada ao desmatamento e às emissões ligadas à produção animal, uma tecnologia desse tipo poderia representar uma oportunidade de diversificação da produção de alimentos de base biológica, alinhada com compromissos de sustentabilidade ambiental.

Os pesquisadores indicam dois caminhos possíveis para o aproveitamento dessa inovação. O primeiro seria extrair a mioglobina das folhas para utilizá-la como ingrediente em produtos que imitam carne — hambúrgueres vegetais, salsichas e alimentos similares — melhorando significativamente seu sabor, cor e valor nutricional. O segundo caminho seria consumir a própria alface modificada diretamente como alimento fresco, oferecendo uma fonte concentrada de mioglobina em cada refeição. Ambas as abordagens abrem possibilidades comerciais distintas e complementares para a indústria de alimentos à base de plantas, que tem crescido exponencialmente nos últimos anos.

O trabalho também representa um exemplo bem-sucedido de como a engenharia genética pode ser empregada de forma responsável para resolver desafios reais. As plantas não apresentaram sinais de estresse ou desequilíbrio metabólico, sugerindo que a modificação foi bem integrada aos processos biológicos naturais. Esse é um ponto crucial para a aceitação pública de alimentos geneticamente modificados, especialmente em mercados europeus e cada vez mais em mercados latinoamericanos, onde há maior resistência inicial a tecnologias desse tipo. A pesquisa demonstra que modificações genéticas bem planejadas e rigorosamente testadas podem ser seguras e benéficas.

O caminho a partir daqui envolve otimizações adicionais, testes de segurança alimentar mais abrangentes e, eventualmente, aprovações regulatórias em diferentes países. Os pesquisadores já indicam que trabalham em melhorias para aumentar o rendimento de mioglobina nas plantas e tornar a produção ainda mais eficiente. Se essas etapas forem bem-sucedidas, essa tecnologia poderia começar a chegar aos mercados de alimentos funcionais e produtos à base de plantas em poucos anos, oferecendo consumidores preocupados com sustentabilidade uma opção genuinamente inovadora e fundamentada em ciência rigorosa.

Fonte: ANSA ↗
Este é um resumo original. Leia a matéria completa no veículo de origem.
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