Meio Ambiente

Pescadores e conservacionistas na Turquia transformam litoral mediterrânico em santuário marinho

Comunidade turca triplica áreas marinhas protegidas em 480 km de costa, trazendo de volta tubarões, focas e aumentando a renda de pescadores locais.

06 de agosto de 2026

Pescadores e conservacionistas na Turquia transformam litoral mediterrânico em santuário marinho
Foto: ImageGuy2288 (BY-SA) via Openverse

A costa mediterrânea da Turquia é palco de uma transformação ambiental notável: pescadores e conservacionistas locais, apoiados por uma organização internacional, conseguiram expandir significativamente as áreas marinhas protegidas, restaurando um ecossistema inteiro que estava à beira do colapso. A iniciativa, que começou em 2019 e já mostra resultados concretos, exemplifica como a colaboração entre comunidades tradicionais e especialistas em conservação pode reverter décadas de degradação ambiental e gerar benefícios econômicos simultaneamente.

O projeto partiu de uma realidade desafiadora: embora alguns trechos do litoral turco já tivessem designação de santuários marinhos, a falta de financiamento, de fiscalização eficaz e, especialmente, de envolvimento das comunidades locais permitiram que a pesca ilegal dizimasse populações de tubarões, focas-monge e tartarugas. Simultaneamente, pescadores legítimos enfrentavam quedas drásticas nas capturas e consequente redução de renda, pois a biodiversidade marinha — base da sua subsistência — estava desaparecendo. Era um ciclo vicioso: sem proteção efetiva, os ecossistemas não se recuperavam; sem recuperação, as comunidades que dependiam desses recursos sofriam economicamente.

A mudança começou quando o programa Endangered Landscapes & Seascapes Program (ELSP), uma organização sem fins lucrativos nascida de uma iniciativa da Universidade de Cambridge e financiada pelo fundo britânico Arcadia (que dispõe de bilhões de libras), lançou um programa de subsídios para ambientalistas turcos locais. Com investimento inicial de aproximadamente três milhões de dólares, o objetivo era claro: restaurar os mares abundantes entre a Baía de Gökova e o Cabo Gelidonya, expulsar operações de pesca ilegal e proteger ecossistemas críticos como recifes de coral mediterrâneo e pradarias de algas marinhas. O líder dessa frente foi Zafer Kızılkaya, um conservacionista que depois ganharia o prestigioso Prêmio Goldman Ambiental de 2023 justamente pelo trabalho que se preparava para começar.

A estratégia de Kızılkaya foi brilhante em sua simplicidade: ele havia comprovado anteriormente que era possível recuperar ecossistemas marinhos através de uma abordagem comunitária, como fez na Baía de Gökova em 2012, criando a primeira área marinha protegida gerida pela comunidade local do país. Agora, a meta era replicar e expandir esse sucesso. Entre 2019 e 2023, a equipe criou ou ampliou 18 zonas de não-pesca ao longo de quase 500 quilômetros de costa, conectando seis áreas marinhas protegidas distintas, cada uma com um microambiente único — um recife de coral em um local, uma pradaria de algas em outro. A chave foi reconectar essas ilhas de proteção, entendendo que espécies como peixes e tubarões migram sazonalmente e precisam de corredores ecológicos seguros para sobreviver.

Mas talvez a inovação mais importante foi conquistar a confiança dos próprios pescadores. Inicialmente céticos em relação às zonas de proibição de pesca, os mariners locais foram persuadidos quando Kızılkaya levou pescadores de Gökova — que já haviam vivido o aumento de capturas após o estabelecimento da área protegida em 2012 — para compartilhar suas histórias e resultados. Essa prova viva funcionou onde argumentos científicos poderiam ter falhado. Além disso, o projeto recrutou e treinou moradores locais para atuar como “guardiões marinhos”, uma necessidade surgida quando a guarda costeira turca admitiu não ter recursos suficientes para combater a pesca ilegal, diante de prioridades como refugiados, tráfico humano e contrabando. Esses vigilantes comunitários, que conheciam intimamente os padrões de atividade ilegal, trabalharam frequentemente em condições perigosas para expulsar infratores em colaboração com órgãos de segurança locais.

Os resultados têm sido extraordinários. A pesca ilegal caiu 80% nos anos seguintes. As capturas de pescadores legítimos começaram a aumentar — um fenômeno documentado repetidamente em zonas de pesca ao redor de áreas marinhas protegidas, onde a biomassa se recupera e “transborda” para territórios adjacentes. Mais dramaticamente ainda, espécies presumivelmente extintas ou em risco crítico retornaram: tubarões-de-areia (a costa turca é, notavelmente, o único lugar do Mediterrâneo onde tubarões residem o ano inteiro) e a focas-monge-do-Mediterrâneo, uma espécie em perigo, com mais de 30 indivíduos agora habitando a região. A atividade turística também se expandiu, com mais embarcações visitando essas áreas, sinalizando que conservação e desenvolvimento podem coexistir.

O trabalho de Kızılkaya também reflete uma mudança cultural mais ampla na região. Há quinze anos, conservacionistas marinhos operavam isoladamente; hoje, há uma comunidade vibrante de projetos similares por todo o Mediterrâneo e mundo afora, compartilhando conhecimento e estratégias. Paralelamente, uma geração mais jovem na Turquia — com maior poder aquisitivo que seus antecessores — está descobrindo interesse genuíno pela vida selvagem local, equipando-se com binóculos e câmeras para documentar e proteger as maravilhas naturais do seu país. Isso sugere que a mentalidade conservacionista pode enraizar-se profundamente quando comunidades têm segurança econômica e acesso a ferramentas.

O projeto agora avança para uma fase ainda mais ambiciosa: estabelecer e proteger corredores ecológicos que liguem habitats cruciais ao longo de toda a costa. Kızılkaya reconhece que as espécies marinhas continuam migrando; focas e tubarões se movem; a proteção não é absoluta, mas cria as condições para que populações se recuperem e se espalhem naturalmente. A história da Turquia demonstra que mesmo em contextos com recursos limitados, determinação local combinada com financiamento internacional inteligente e respeito pelas comunidades tradicionais pode não apenas salvar um ecossistema, mas criar um modelo replicável para o resto do mundo.

Fonte: Good News Network ↗
Este é um resumo original. Leia a matéria completa no veículo de origem.
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