Solidariedade

De viral a movimento: as antigas canções de marinheiros que reúnem comunidades

Após viralizar no TikTok, as sea shanties conquistaram centenas de grupos comunitários no Reino Unido, transformando vidas e criando laços com benefícios comprovados para a saúde mental.

31 de agosto de 2026

De viral a movimento: as antigas canções de marinheiros que reúnem comunidades
Foto: COD Newsroom (BY) via Openverse

O que começou como uma tendência de internet se transformou em algo muito maior: um movimento genuíno que conecta pessoas de diferentes gerações e backgrounds ao redor de uma tradição marítima centenária. As sea shanties, aquelas antigas canções de trabalho entoadas por marinheiros, estão experimentando um renascimento extraordinário, preenchendo não apenas pistas de dança, mas criando comunidades vibrantes onde antes havia isolamento. Essa ressurreição cultural oferece muito mais do que entretenimento — ela restabelece laços comunitários e traz benefícios tangíveis para a saúde mental de participantes e audiências.

Tudo começou em 2021, quando um simples vídeo viral transformou a história. Uma canção de pesca neozelandesa chamada Wellerman, interpretada por Nathan Evans, um carteiro escocês, conquistou a plataforma TikTok e disparou em popularidade. O algoritmo do Spotify, percebendo o interesse crescente, passou a recomendar cada vez mais shanties aos usuários, criando uma onda que alcançou proporções inesperadas. O que era conhecido apenas por historiadores e entusiastas de folclore de repente se tornou trending topic global, abrindo os olhos de milhões para uma forma de expressão artística praticamente esquecida.

Na sequência dessa explosão digital, comunidades por todo o Reino Unido descobriram uma oportunidade única. Centenas de grupos de sea shanties brotaram em cidades costeiras e até mesmo em regiões do interior, de Oxford até West Yorkshire e Londres. Esses grupos variam em formato e propósito: alguns mantêm uma abordagem mais profissional e focada em música folclórica, enquanto outros priorizam a diversão e a acessibilidade. A banda Wreckers, baseada em Newhaven, na costa sul da Inglaterra, exemplifica bem essa segunda vertente. Formada em 2023, o grupo reúne oito homens com idades que variam de 22 a 82 anos, a maioria aposentada, que se encontra regularmente em um galpão para ensaiar e apresentar essas canções de forma descontraída e contagiante.

Originalmente, as sea shanties tinham uma função muito prática. Nos séculos 18 e 19, marinheiros em navios mercantes grandes entoavam essas canções ritmadas para manter o ânimo durante trabalho árduo em condições climáticas brutais e em mar agitado, longe de casa por meses. O “chantyman” — um membro designado da tripulação — escolhia a melhor canção para cada tarefa, seja puxar cordas ou erguer mastros, enquanto a tripulação respondia em coro. Era uma forma de sincronização coletiva, um mecanismo de sobrevivência emocional em um contexto de extrema dureza.

Tony Lewis, operador de operações em uma estação de barcos salva-vidas, nunca havia cantado publicamente antes de se juntar aos Wreckers. Ele descreve os ensaios de quarta-feira como o destaque de sua semana, um espaço onde questões de saúde pessoal e perdas são processadas através da música e do companheirismo. Lewis aponta explicitamente como a participação no grupo trouxe benefícios para a saúde mental dos oito membros: “Alguns de nós enfrentamos questões de saúde, perdemos parceiros, mas através das shanties encontramos raízes para entender nosso lugar na vida. Cantar é definitivamente bom para o espírito; faz você sentir que está realmente respirando.” Além disso, a natureza colaborativa da atividade — onde cada membro depende dos outros para entrar no momento certo — cria um senso profundo de fraternidade.

Fora de Newhaven, outras iniciativas mostram como as sea shanties funcionam como ferramenta de inclusão e saúde comunitária. Gareth Roberts, fundador da banda Orwellermen em Ipswich, percebeu que as shanties poderiam trazer homens para fora de casa e criar uma rede de apoio mútuo. Sua visão era resgatar a tradição perdida de pessoas reunidas em pubs para cantar juntas — uma prática que havia desaparecido da vida moderna. O resultado foi um grupo de 25 pessoas que se reúne semanalmente em ambiente acolhedor e sem elitismo. O fenômeno das sea shanties oferece uma lição maior sobre como a tecnologia, quando usada de forma inesperada, pode resgatar tradições e criar espaços genuínos de conexão humana. Enquanto esses grupos continuam a crescer, demonstram que as necessidades humanas mais fundamentais — pertencimento, propósito e harmonia — transcendem épocas e tecnologias.

Fonte: Positive News ↗
Este é um resumo original. Leia a matéria completa no veículo de origem.
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