Do petróleo à mudança: executiva deixa carreira lucrativa para combater crise climática
Ex-executiva de petróleo abandona carreira bem-sucedida após 20 anos para liderar movimento que inspira empresas a enfrentar emergência climática.

Samantha Cooper viveu uma trajetória que simboliza uma transformação silenciosa ocorrendo nos bastidores da indústria global de energia. Durante duas décadas, ela foi parte da máquina que alimenta nossa dependência dos combustíveis fósseis, ocupando posições executivas de destaque. Hoje, porém, ela encabeça um movimento que tenta convencer seus antigos colegas de que é possível – e libertador – abandonar esse caminho. Sua história não é apenas pessoal; representa um sinal importante de que até mesmo dentro das estruturas que sustentam a crise climática, há quem esteja disposto a virar a página.
Nos anos 1990, Cooper ingressou na Mobil com objetivos simples e pragmáticos: conseguir emprego em Londres, manter a vida social universitária e ganhar bem. Rapidinho, ela descobriu que a indústria de petróleo oferecia tudo isso e mais. Começou com tarefas aparentemente mundanas – coordenar barcaças que entregavam combustível para o metrô londrino – mas logo subiu na hierarquia. Após a fusão entre BP e a divisão europeia de combustíveis da Mobil, Cooper ascendeu a executiva sênior, conduzindo estratégias globais de negociação. O salário era alto, as viagens frequentes, e havia prestígio. Ela estava exatamente onde desejava estar, embora, como reconhece hoje, vivesse numa “bolha de ignorância” em relação às consequências reais de seu trabalho.
O despertar não veio de um único momento de iluminação, mas de um acúmulo de pressões pessoais e crescente consciência. O derramamento de petróleo da Deepwater Horizon em 2010 foi um marco, assim como a notícia de traders americanos presos por manipulação de preços. Um detalhe aparentemente trivial a abalou: ao tentar vender uma carga de um navio, tomou conhecimento de que a tripulação havia ficado sem água. “Pensei: ‘Ah, tem gente no navio.’ O que parece ridículo, mas foi um choque descobrir quantas camadas de desconexão eu tinha criado com a realidade física”, reflete ela. Simultaneamente, a pressão do trabalho se tornava insuportável. Acordava cedo, passava pela academia, mergulhava num dia intenso de negociações, e mesmo durante o Natal, cada notícia a levava a pensar apenas em uma coisa: “Como isso vai afetar o preço do petróleo?”
O paradoxo que desencadeou sua transformação era visceral: apesar de atingir constantemente suas metas de vendas – aliás, as metas cresciam a cada ano – ela se sentia vazia. “Deveria estar no topo do mundo. Por que não me sinto assim?”, perguntava-se. Nenhuma quantidade adicional de dinheiro ou status preenchia aquele vazio. Chocada consigo mesma, Cooper começou a explorar práticas de atenção plena e meditação budista, encontrando algum conforto nessas disciplinas. Paralelamente, passou a trabalhar como voluntária com grupos de mulheres e organizações ambientais. Nominalmente, estava lá para orientá-los sobre parcerias com empresas e arrecadação de fundos; na prática, quem a mentorizava era eles. “Aprendi tanto sobre questões sociais, igualdade, ecologia e clima com pessoas verdadeiramente incríveis”, diz ela.
Essa educação recebida de ativistas e organizadores, somada ao desgaste emocional do trabalho corporativo, tornou impossível voltar ao antigo caminho. Em 2015, após 20 anos na indústria de petróleo, Cooper pediu demissão. Canalizou aquela mesma energia e determinação que a tornara executiva bem-sucedida para uma nova carreira focada em resolver os problemas que, sem querer, havia ajudado a criar. Hoje, ela é diretora da Business Declares, uma organização que trabalha para inspirar corporações a enfrentar a “policrise” causada pela emergência climática, ecológica e social simultaneamente. Mas sua influência vai além: ela também integra e promove a Life After Oil, uma rede internacional de ex-executivos da indústria de petróleo e gás determinados a provar que a transição é viável e até desejável.
Pesquisa encomendada à Universidade de Bath revelou dados notáveis: há uma onda de trabalhadores da indústria de óleo e gás deixando seus postos ou considerando seriamente fazê-lo, muitas vezes movidos por preocupações climáticas e frustração com a lentidão das empresas em responder à crise. A professora Grace Augustine, coordenadora do estudo, observa que muitos dos que saíram relatam “uma leveza, um alívio profundo” ao se libertar da exaustão mental que era necessária para conciliar sua crescente consciência da ameaça com as exigências diárias do trabalho. Cooper confirma essa sensação. “Perguntam se corri um risco ao sair. Sim, mas encontrei uma liberdade que não tinha imaginado. E sou muito mais feliz com bem menos. O verdadeiro risco é ficar.”
A transformação de Samantha Cooper importa porque desafia uma narrativa comum: a de que mudança de grande escala depende apenas de pressão externa ou regulação governamental. Aqui temos alguém de dentro do sistema, alguém com poder e influência, escolhendo conscientemente romper com vantagens materiais para alinhar sua vida com seus valores. Não é um gesto romântico ou ingênuo; é pragmático, calculado e, paradoxalmente, mais satisfatório do que as décadas de ganhos financeiros. Para o Brasil, país ainda altamente dependente de combustíveis fósseis e com uma indústria de petróleo robusta, histórias como a de Cooper oferecem perspectivas valiosas: mostram que a transição é possível, que profissionais talentosos podem se reinventar, e que a libertação pessoal e a responsabilidade planetária não são conceitos antagônicos, mas complementares. Enquanto movimentos globais ganham força, pessoas como ela funcionam como catalisadores, provando que sair não é fraqueza – é coragem.