Festivais de música se tornam agentes de restauração ambiental e transformação comunitária
Festivais ao redor do mundo vão além de medidas superficiais, realizando projetos ambiciosos de restauração de terras e engajamento comunitário genuíno.

A temporada de festivais atinge seu auge com uma transformação notável: cada vez mais eventos abandonam as medidas superficiais de sustentabilidade e abraçam projetos ambiciosos de restauração de terras e engajamento comunitário genuíno. Em vez de apenas contar com a conscientização ambiental do público, esses festivais estão reimaginando como grandes reuniões culturais podem ser catalisadores para mudança ecológica duradoura.
Um exemplo marcante aconteceu em Londres, no UK Youth Day realizado em agosto em Victoria Embankment Gardens. Diferentemente de ingressos convencionais, os visitantes foram convidados a trazer resíduos plásticos — polipropileno e HDPE — que foram classificados e utilizados em oficinas de reciclagem ao vivo. Os plásticos coletados foram posteriormente transformados em uma obra de arte sob orientação do escultor Zac Ové, a ser exibida em galeria em setembro. Darcy Thomas, fundador do evento, compartilha uma motivação pessoal: como pai, questiona o legado que a geração atual deixa para as crianças. Para ele, o festival não é apenas coleta de lixo, mas demonstração de que agir em favor da sustentabilidade pode ser celebratório, criativo e empoderante.
O que distingue esses novos festivais é a rejeição do “greenwashing” — aquele compromisso ambiental superficial sem ação real. Claire O’Neill, diretora executiva de A Greener Future, organização que avalia independentemente o desempenho ambiental de festivais, identifica uma mudança clara: os organizadores deixaram de apenas conscientizar e começaram a construir soluções duráveis. Porém, ela alerta contra o uso vago do termo “regenerativo” sem verificação independente. O foco agora está no que permanece após o encerramento do evento e nos impactos mensuráveis no terreno.
As soluções práticas variam significativamente. Alguns festivais, como Massive Attack’s Act 1.5, LIDO Festival e WOMAD, substituíram geradores a diesel por baterias alimentadas por energia renovável. O Positive Trace Festival, na Dinamarca, integra sessões matinais de restauração de terras ao seu programa musical, onde participantes ajudam a estabelecer hortas comunitárias, florestas alimentares e savanas de nogueiras. Edições anteriores mobilizaram mais de mil pessoas em trabalho de restauração em mais de 30 hectares. O Boom Festival em Portugal, por sua vez, investe há uma década em restauração: desde 2015, plantou e cuidou de mais de mil árvores, paralelamente a trabalhos em jardins, solo, biodiversidade e retenção de água.
Roshan Netalkar, diretor do Echoes of Earth em Bengaluru, na Índia, resume uma lição crucial: pessoas mudam de comportamento após festivais, mas não por mensagens isoladas. O que realmente impacta é quando a proteção ambiental se torna parte da experiência vivida — algo que as pessoas sentiram e apreciaram, em vez de simplesmente ouvirem falar. Festivaleiros também realizam atividades práticas como criar pequenas estruturas de terra chamadas “Smilands”, projetadas para desacelerar o escoamento de água. Claro, nenhum esforço torna um festival completamente sem impacto: as pessoas precisam chegar ao local, palcos exigem energia, multidões geram resíduos. Mas o arsenal de opções para reduzir esses impactos cresceu significativamente, transformando festivais em laboratórios vivos onde entretenimento e regeneração ambiental caminham juntos.