Ciência

Herança genética de neandertais pode estar potencializando sua musculatura

Estudo revela que variante do gene do receptor de hormônio do crescimento herdada de neandertais resulta em até 271 gramas a mais de massa muscular.

14 de agosto de 2026

Herança genética de neandertais pode estar potencializando sua musculatura
Foto: Bioanthropologist1 (BY-SA) via Openverse

Uma descoberta fascinante sobre nossa herança evolutiva está mudando a forma como entendemos a força muscular humana. Pesquisadores descobriram que pessoas que carregam uma versão neandertal do gene do receptor de hormônio do crescimento possuem, em média, 271 gramas adicionais de massa muscular em comparação com aquelas que não herdaram essa variante. Para quem herdou o gene de ambos os pais, o ganho tende a ser ainda maior. O achado é resultado de um amplo estudo que combinou experimentos laboratoriais com dados populacionais de mais de um milhão de pessoas, oferecendo uma perspectiva rara e confiável sobre como nossa herança genética ancestral continua influenciando nosso corpo.

O receptor de hormônio do crescimento é uma proteína celular fundamental que ajuda a regular o desenvolvimento em todo o corpo humano. Quando cientistas compararam os genomas de humanos modernos e neandertais, identificaram diferenças genéticas significativas na versão neandertal desse receptor. Em culturas de células testadas em laboratório, o receptor neandertal produzia mais sinais de crescimento do que a versão do humano moderno — um achado que se alinha perfeitamente com o corpo robusto e musculoso característico dos neandertais e sugere que esse efeito biológico persiste em alguns corpos humanos contemporâneos.

O que torna essa descoberta ainda mais interessante é que essa variante genética não é rara. A maioria das pessoas vivas hoje carrega entre um e dois por cento de DNA neandertal, herança direta do cruzamento entre humanos modernos e neandertais que ocorreu milhares de anos atrás. A variante específica do receptor de hormônio do crescimento é particularmente prevalente em populações do Sul e Leste Asiático, chegando a aparecer em até 24 por cento de algumas regiões do Sul da Ásia. Isso significa que milhões de pessoas ao redor do mundo podem estar se beneficiando dessa herança genética ancestral, frequentemente sem saber.

Um aspecto notável dessa pesquisa é a rara concordância entre evidências laboratoriais e dados populacionais. Segundo Philipp Kanis, primeiro autor do estudo e pesquisador de pós-doutorado no Instituto Max Planck para Antropologia Evolutiva em Leipzig, na Alemanha, é incomum ver resultados de laboratório e evidências de população se alinhem tão claramente. “As células cultivadas em laboratório responderam muito mais intensamente aos sinais, enquanto os dados coletados de mais de um milhão de pessoas mostraram indicações do mesmo efeito ocorrendo nos corpos reais”, explicou. Essa convergência de métodos científicos distintos valida fortemente a conclusão e oferece confiança de que o efeito é genuíno e mensurável.

O impacto dessa descoberta vai além do simples aspecto biológico. Ela contribui para uma compreensão crescente de quanto da biologia humana moderna rastreia sua origem até a herança genética neandertal. Os efeitos sobre o sistema imunológico já eram conhecidos como exemplos claros dessa influência ancestral, e agora a massa muscular pode ser adicionada à lista de características que recebemos de nossos ancestrais extintos. Essa conexão nos lembra que somos resultado de uma mistura genética complexa e que aspectos da anatomia de nossos antepassados continuam moldando quem somos hoje.

No entanto, é importante manter a perspectiva realista sobre o assunto. Miriam Berreiter, coautora do estudo e estudante de doutorado no Instituto Karolinska na Suécia, ofereceu um lembrete sábio: “Nem mesmo um receptor de hormônio do crescimento neandertal substitui o treinamento adequado”. Ou seja, embora a herança genética possa oferecer uma vantagem inicial para o desenvolvimento muscular, o trabalho árduo, exercício regular e nutrição adequada continuam sendo os pilares fundamentais para construir e manter massa muscular. A genética estabelece o potencial, mas o esforço pessoal é o que realiza esse potencial. Essa pesquisa, publicada na revista Current Biology, abre novas portas para entender como fatores evolutivos antigos continuam operando em nossos corpos e oferece mais um exemplo impressionante de como a ciência moderna consegue conectar pontos entre nosso passado distante e nossa realidade presente.

Fonte: Optimist Daily ↗
Este é um resumo original. Leia a matéria completa no veículo de origem.
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