Intérprete surdo leva a magia dos shows para fãs com deficiência auditiva
Luke Holdsworth, profissional britânico surdo, revoluciona a experiência de concertos ao vivo usando linguagem de sinais para traduzir a energia, ritmo e personalidade dos artistas.

Helicópteros sobrevoam o estádio enquanto dezenas de milhares de fãs de Oasis se reúnem em Cardiff para um momento histórico. No meio da multidão, Luke Holdsworth trabalha interpretando cada nota, cada gesto, cada onda de emoção em linguagem de sinais britânica (BSL). Sua missão é simples, mas profundamente importante: garantir que pessoas surdas vivenciem a mesma adrenalina, o mesmo espírito de comunidade e a mesma conexão emocional que ouvintes experimentam em um show ao vivo.
Nascido completamente surdo e criado por pais também surdos, Holdsworth cresceu cercado pela linguagem de sinais, que utiliza formas de mão, gestos, expressões faciais e movimentos corporais para comunicação. Para ele, era tão natural quanto o português é para um ouvinte brasileiro. Mas, ironicamente, apenas quando entrou na vida adulta descobriu que poderia desfrutar de concertos – e isso só aconteceu porque alguém, em algum lugar, decidiu que sua comunidade merecia acesso. Aos 36 anos, ele se tornou um dos intérpretes de linguagem de sinais mais respeitados do Reino Unido em eventos de música ao vivo, transformando sua própria história em uma oportunidade para muitos outros.
Tudo começou há sete anos quando Holdsworth foi a um festival de música e, pela primeira vez, viu uma intérprete de sinais profissional em ação. Tracey Tyer, uma lenda no nicho de interpretação para performances, estava traduzindo a apresentação de Underworld. O impacto foi imediato e profundo. “Fiquei simplesmente impressionado”, lembra. “Ela não apenas interpretava – ela incorporava a música, vivia cada segundo dela. Meus amigos e eu ficamos em êxtase.” Esse momento único despertou nele a convicção de que interpretar música ao vivo não era apenas um trabalho, mas uma forma de contar histórias, de trazer à vida as emoções que cada canção carrega.
Para Holdsworth, o trabalho vai muito além de traduzir palavras. Ele passa horas estudando as discografias dos artistas, mergulhando em suas histórias, compreendendo o contexto cultural e pessoal por trás de cada música. Com audição parcial através de aparelhos, ele aprende letras e melodias, mas, mais importante, entende a atitude e a personalidade de quem canta. Quando interpretou o retorno histórico do Oasis no estádio de Cardiff em 2024, Holdsworth não apenas sinalizou as letras – ele capturou a famosa arrogância e o estilo único dos irmãos Gallagher. Trabalhando ao lado de sua colega Samantha Vanterpool, ambos conseguiram transmitir até mesmo o swagger dos músicos, aquele traço inconfundível que torna a banda tão memorável.
Mas há uma razão ainda mais pessoal por trás da dedicação de Holdsworth. Seu primeiro show ao vivo aconteceu apenas aos 20 e poucos anos – e foi com One Direction, sem qualquer intérprete de sinais disponível. “Entendi absolutamente nada”, confessa com um toque de constrangimento. “Como pessoa surda, você cresce assumindo que certas coisas não são para você. Eu nem imaginava que poderia ir a um concerto e realmente aproveitar.” Essa lacuna em sua própria vida juvenil o motiva a garantir que a próxima geração de pessoas surdas não tenha de esperar até a vida adulta para sentir aquela emoção indescritível de estar em um show, cercado por uma multidão unida por uma experiência compartilhada.
Embora o trabalho de intérpretes de sinais em eventos esteja se tornando mais comum no Reino Unido, Holdsworth vê um longo caminho a percorrer. A Lei da Igualdade de 2010 estabelece que organizadores de eventos têm o dever legal de fazer ajustes razoáveis, incluindo a disponibilização de intérpretes de BSL. Mesmo assim, muitos lugares ainda não o fazem por padrão. “Pessoas surdas não querem ter de explicar ou pedir acesso”, enfatiza. “Se você está promovendo um evento, coloque intérpretes de sinais e divulgue. As pessoas vão comprar ingressos. É uma situação onde todos ganham.”
Atualmente, Holdsworth está em alta demanda. Após seu trabalho no retorno histórico do Oasis, sua agenda está repleta de interpretações em grandes festivais e shows de artistas como Harry Styles, Lewis Capaldi e em eventos culturais de grande escala. Para ele, cada apresentação representa não apenas o reconhecimento de seu talento, mas também um passo em direção a uma mudança cultural maior. A interpretação em linguagem de sinais é maior do que simples acessibilidade – é sobre permanecer à altura da humanidade em oferecer a todos a chance de vivenciar plenamente as mesmas alegrias.
A esperança de Holdsworth é que, em breve, a presença de intérpretes de sinais em eventos musicais seja tão comum que ninguém tenha de perguntar se haverá acesso. Significa que jovens surdos crescerão sabendo que shows ao vivo são para eles, que a música faz parte de sua comunidade tanto quanto de qualquer outra. Significa que a mágica de estar em um estádio lotado, cercado de amigos e estranhos cantando e dançando juntos, não é um privilégio reservado a alguns, mas uma experiência genuinamente partilhada por todos. E isso, em essência, é o que torna sua missão tão transformadora.