Animais

Lince-ibérico sai da lista de espécies em perigo após maior recuperação felina do mundo

Felino europeu mais ameaçado recupera-se dramaticamente: de 62 indivíduos em 2001 para mais de 2 mil hoje, mudando de status na classificação internacional de risco de extinção.

20 de junho de 2024

Lince-ibérico sai da lista de espécies em perigo após maior recuperação felina do mundo
Foto: IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza) (site oficial)

Uma das histórias mais inspiradoras de conservação animal chega a um marco histórico: o lince-ibérico, que esteve à beira da extinção há pouco mais de duas décadas, acaba de ser reclassificado de “em perigo” para “vulnerável” na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza). Trata-se do maior sucesso já registrado na recuperação de uma espécie felina através de esforços de conservação — um testemunho vivo de que, mesmo diante dos cenários mais sombrios, a dedicação coletiva e a ciência podem reverter o curso da extinção.

O números dizem tudo: em 2001, apenas 62 adultos de lince-ibérico sobreviviam. Hoje, a população total ultrapassa os 2 mil indivíduos, incluindo jovens e adultos. Mais especificamente, o levantamento de 2022 apontava 648 animais maduros — um crescimento exponencial que reflete duas décadas de trabalho persistente. Geograficamente, a espécie agora ocupa uma área de pelo menos 3.320 quilômetros quadrados, comparado aos apenas 449 quilômetros de 2005. Desde 2010, mais de 400 linces-ibéricos foram reintroduzidos em habitats naturais em Portugal e na Espanha, ampliando gradualmente a presença do felino em seu território histórico.

Por trás dessa recuperação extraordinária está um modelo de colaboração que envolveu governo, instituições científicas, organizações não-governamentais, empresas privadas e, crucialmente, comunidades locais — proprietários de terras, agricultores, guardas florestais e caçadores. O projeto LIFE Lynx-Connect, apoiado pela União Europeia, orquestrou esses esforços multidisciplinares. A estratégia combinou várias frentes: restauração e proteção do habitat de maquis e floresta mediterrânea; aumento da população de coelhos-bravos europeus, principal presa do lince; redução de mortes causadas por humanos (atropelamentos, caça ilegal); e, de forma inovadora, programas de reprodução em cativeiro seguidos de translocações, que ampliaram a diversidade genética da população selvagem — fator crítico para a viabilidade a longo prazo.

Mas a luta está longe de terminar. O lince-ibérico permanece vulnerável a ameaças significativas. A população de coelhos-bravos, sua principal fonte alimentar, pode flutuar drasticamente em caso de surtos virais, colocando em risco toda a cadeia alimentar do felino. Doenças transmitidas por gatos domésticos continuam sendo uma preocupação, assim como atropelamentos em estradas que cortam seu habitat e a caça ilegal. Além disso, as alterações do clima começam a modificar os ecossistemas que o lince depende, adicionando uma camada de complexidade aos desafios futuros.

A IUCN também aplicou pela primeira vez sua nova métrica chamada “Green Status of Species” (Status Verde de Espécies) para avaliar o progresso geral da recuperação do lince. Segundo essa ferramenta, a espécie ainda é classificada como “largamente depletada” — indicando que, embora tenha se recuperado dramaticamente, ainda está longe de sua abundância e distribuição histórica. No entanto, a avaliação oferece esperança: o legado de conservação é sólido, e há habitat suficiente para que a espécie atinja status de “completamente recuperada” em até 100 anos, desde que os esforços continuem com máxima eficiência.

O significado dessa mudança de status transcende os números. Para conservacionistas e biólogos em todo o mundo, o lince-ibérico é prova de que espécies à beira do abismo podem retornar — de que a extinção não é um destino inevitável quando há vontade política, recursos e engajamento comunitário. Os planos futuros incluem reintroduzir o felino em novos sítios no centro e norte da Espanha, expandindo ainda mais sua recuperação. Essa é a mensagem que a comunidade internacional de conservação precisa: mesmo em tempos de crise climática e perda de biodiversidade, exemplos como o do lince-ibérico demonstram que o trabalho coletivo, fundamentado em ciência rigorosa, continua sendo a ferramenta mais poderosa que temos para proteger a vida selvagem.

Fonte: IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza) ↗
Este é um resumo original. Leia a matéria completa no veículo de origem.
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