Segunda mão e economia criativa viram tendência entre jovens europeus
Geração Z transforma mercado de moda europeu, impulsionando plataformas de roupas usadas e criando novo modelo econômico sustentável.

O mercado de moda na Europa está vivendo uma transformação profunda, impulsionada principalmente pelos hábitos de consumo da Geração Z. Um estudo recente envolvendo mais de dois milhões de consumidores online em dez países europeus revela que as plataformas de segunda mão e os modelos de comércio focados em qualidade estão revolucionando a forma como os jovens se relacionam com a moda. Esse movimento não é apenas uma questão de economia pessoal, mas representa uma mudança estrutural no setor que cria novas oportunidades de negócio e reforça práticas mais sustentáveis.
A roupa continua sendo um dos segmentos mais importantes do comércio eletrônico europeu, representando cerca de um quinto de todas as compras online nos principais mercados do continente. No entanto, o crescimento do setor está desacelerando: enquanto o e-commerce geral cresceu 5% no último ano, as vendas online de vestuário aumentaram apenas 3%, sinalizando que o mercado tradicional precisa se reinventar. Nesse contexto, a fragmentação do mercado é cada vez mais evidente, com consumidores migrando para uma variedade crescente de plataformas — desde os clássicos marketplaces até redes sociais, plataformas de desconto agressivo e, especialmente, sites especializados em itens usados.
O que diferencia essa dinâmica é o protagonismo da Geração Z. Os jovens entre 18 e 29 anos representam uma fatia crescente dos compradores de moda online e estão redefinindo as prioridades do consumo. Diferentemente de gerações anteriores, essa audiência busca simultaneamente qualidade, preço acessível, sustentabilidade e a possibilidade de descobrir marcas novas ou pouco conhecidas. Essas preferências estão conduzindo investimentos e inovações nas plataformas que conseguem entregar esses atributos de forma integrada. Enquanto isso, consumidores mais velhos — particularmente aqueles entre 40 e 44 anos — continuam sendo os maiores gastadores em termos absolutos, criando oportunidades para marcas premium que sabem atuar em múltiplos canais.
O segmento de segunda mão, que antes era considerado um nicho, agora é reconhecido como um motor estrutural de crescimento no e-commerce de moda. Os consumidores jovens não veem mais a roupa usada como uma concessão, mas como uma escolha inteligente que combina economia, acesso a marcas de luxo e responsabilidade ambiental. Essa aceitação massiva fez com que plataformas especializadas em revendita se tornassem atores centrais no ecossistema competitivo europeu, rivalizando com varejistas tradicionais e grandes marketplaces. A tendência é particularmente forte entre os mais jovens, que incorporam naturalmente peças novas e de segunda mão em suas estratégias de compra, sem diferenciar ou estigmatizar uma categoria em relação à outra.
Outro fenômeno relevante é a ascensão do estilo Gorpcore — a mistura de roupas outdoor e técnicas com peças do dia a dia — que está abrindo novos nichos de crescimento. Consumidores dessa tendência gastam significativamente mais do que aqueles que seguem o activewear tradicional, demonstrando que há espaço para segmentação sofisticada mesmo em um mercado maduro. O segmento de sportswear como um todo continua superando a média geral: 71% das marcas de esportes registraram crescimento no último ano, contra 51% de todas as marcas de vestuário, mostrando que inovação em design e funcionalidade ainda atrai consumidores dispostos a investir.
Os eventos promocionais, como a Black Friday, continuam tendo peso significativo: esse período agora representa 9% das vendas anuais de roupa online na Europa. Durante essas janelas, os consumidores mostram maior disposição para experimentar novos nomes e marcas, transformando ocasiões assim em oportunidades estratégicas para varejistas expandirem sua base de clientes. Grandes operadores — sejam marketplaces tradicionais, plataformas de comércio social ou apps especializados em segunda mão — competem para oferecer as melhores propostas de valor em momentos críticos como esse.
O quadro geral aponta para um mercado que não está em declínio, mas em reconfiguração. A redução da taxa de crescimento não significa morte do setor, mas sim uma maturidade que exige criatividade de novos modelos. As marcas e varejistas que conseguirem se posicionar em múltiplos canais, que abraçarem a economia circular e que compreenderem as nuances das preferências geracionais — especialmente a busca por autenticidade, sustentabilidade e bom custo-benefício — estarão bem posicionadas para prosperar. Para o leitor brasileiro, essa tendência europeia também é uma indicação de que a moda sustentável e o comércio de segunda mão não são apenas movimentos temporários, mas transformações profundas que tendem a se consolidar globalmente. A forma como os jovens europeus estão redesenhando seus hábitos de consumo pode servir como espelho para entender como o mercado brasileiro evoluirá nos próximos anos.