Solidariedade

Mulheres ganham espaço como guias de safári na Índia e transformam o turismo de vida selvagem

Guias mulheres conquistam reconhecimento e viram tendência em reservas de tigres na Índia, quebrando barreiras históricas e elevando a qualidade das experiências turísticas.

27 de agosto de 2026

Mulheres ganham espaço como guias de safári na Índia e transformam o turismo de vida selvagem
Foto: COD Newsroom (BY) via Openverse

Há pouco mais de uma década, a ideia de uma mulher comandar um safári pelas florestas indianas era praticamente impensável. Hoje, esse cenário mudou radicalmente. Nas principais reservas de tigres do país, mulheres em uniformes cáqui lideram turistas pela selva com tanta competência e carisma que se tornaram a preferência de muitos visitantes — especialmente viajantes solo e famílias com crianças. Essa transformação não é apenas um marco de igualdade de gênero: representa uma revolução na forma como o turismo de vida selvagem funciona na Índia.

Tudo começou em 2015 na Reserva de Tigres de Tadoba-Andhari, no estado de Maharashtra. Seis mulheres locais foram contratadas pela primeira vez como guias florestais, entre elas Shahnaz Suleman Baig, que aos 44 anos se tornou uma das pioneiras. À época, a decisão causou estranhamento. Os guias homens ofereceram resistência, a comunidade local nunca havia visto mulheres em funções assim e nem mesmo as próprias candidatas tinham certeza de que conseguiriam prosperar em um campo tradicionalmente masculino. Mas o que começou como um experimento tímido revelou-se ser a solução para um problema que ninguém havia realmente considerado: a falta de talentos locais qualificados e a ausência de perspectivas femininas na condução das experiências de safári.

O diretor da reserva de Tadoba reconheceu algo crucial: ao excluir mulheres das profissões de safári, o departamento florestal perdia não apenas um manancial rico de talento local, mas também uma energia, calidez e estilo de comunicação únicos que elas trazem. Hoje, apenas em Tadoba, há 52 mulheres guias atuando. Mas o movimento se expandiu significativamente quando, em 2018, a Pugdundee Safaris — uma das principais operadoras de turismo responsável da Índia — lançou o ProNat, um programa inovador de treinamento aberto a jovens mulheres e homens interessados em carreiras de conservação e turismo de vida selvagem. Diferentemente de outros programas, que treinam apenas os próprios funcionários, o ProNat democratizou o acesso: hoje, mais de 270 alumni, dos quais 35 mulheres, trabalham em parques nacionais e reservas de tigres em toda a Índia, alguns como naturalistas, outros em produção de documentários ou até mesmo como proprietários de suas próprias agências de turismo.

As histórias pessoais dessas mulheres mostram como a profissão exige coragem, conhecimento e presença de espírito. Gayatri Whadai, uma das primeiras guias, relembra com humor como em seu primeiro safári deixou toda a conversa com os turistas por conta de Shahnaz Baig, pois nunca havia falado com estranhos antes. Mas a mesma Whadai que começou tímida enfrentou momentos de risco que testaram seu preparo: em um passeio, ela desceu do veículo para recolher uma sacola plástica descartada por um turista e se viu cara a cara com uma tigresa. Naquele instante, seu instinto profissional prevaleceu — ela permaneceu imóvel até o animal se afastar e garantiu que seus passageiros estivessem seguros. Histórias como essa destacam que a capacidade de lidar com situações adversas na floresta não tem gênero: uma mulher fisicamente apta consegue enfrentar todos os desafios que um homem enfrenta, desde encontros com animais selvagens até 12 horas diárias em estradas acidentadas.

O impacto transcende números. Pesquisas científicas comprovam que a narrativa eficaz ajuda ouvintes a desenvolver empatia, reter informações e construir conexões emocionais com lugares. As mulheres naturalistas da Pugdundee parecem ter um dom natural para isso: tornam os hóspedes mais confortáveis e conseguem transformar um visitante comum em um embaixador da conservação. Mokshada Mahajan, naturalista de 26 anos, ressalta que “uma vez na floresta, seu gênero deixa de importar. O que importa é como você interpreta a natureza para seus hóspedes, como você a torna viva através de suas histórias”. Essa abordagem é especialmente valiosa com crianças: em vez de focar apenas no tigre, as guias mulheres ajudam a explicar como insetos, aves, plantas e predadores se conectam em um ecossistema funcional — uma lição de conservação que fica muito mais memorável.

Outra figura fundamental nesse movimento é Ratna Singh, naturalista de safári e treinadora em Bandhavgarh, em Madhya Pradesh. Desde 2010, ela treinou mais de 2.500 pessoas, incluindo 250 mulheres, priorizando mulheres locais com educação primária mas sem acesso a empregos estáveis. Sua abordagem democratizou o acesso à profissão, criando um caminho claro para mulheres jovens em contextos onde oportunidades de trabalho formal eram limitadas. Essa iniciativa se tornou modelo para outras regiões.

O fenômeno não se limita à Índia. Na África, o Chobe Game Lodge, no Botsuana, inaugurou em 2010 o primeiro time de guias exclusivamente feminino do continente — o Chobe Angels — cuja popularidade junto aos turistas inspirou programas similares em toda a região. Essa tendência global demonstra que a inclusão de mulheres em profissões tradicionalmente masculinas não é apenas questão de justiça social, mas também de qualidade de serviço, satisfação do cliente e oportunidades econômicas para comunidades locais.

O que tornou essa transformação possível foi a convergência entre necessidade (falta de guias qualificados), visão progressista de líderes institucionais, programas de treinamento estruturado e, acima de tudo, a determinação de mulheres que provaram — dia após dia, safári após safári — que estão absolutamente capacitadas para a profissão. Hoje, quando turistas chegam ao amanhecer esperando avistar um tigre, a surpresa agradável costuma ser outra: conhecer mulheres que não apenas conhecem a floresta profundamente, mas conseguem transformar cada encontro com a vida selvagem em uma lição indelével sobre conservação, conexão e respeito pela natureza.

Fonte: Reasons to be Cheerful ↗
Este é um resumo original. Leia a matéria completa no veículo de origem.
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