Mundo

Remessas de marroquinos no exterior já rival turismo e movem 7% da economia

Dinheiro enviado por 3,6 milhões de emigrantes marroquinos representa agora uma das maiores fontes de receita do país, comparável ao turismo e refletindo a importância da diáspora.

09 de agosto de 2026

Remessas de marroquinos no exterior já rival turismo e movem 7% da economia
Foto: US Army Africa (BY) via Openverse

Marrocos vive uma transformação econômica notável impulsionada, em grande parte, pelo fluxo constante de dinheiro enviado por seus cidadãos que vivem no exterior. As remessas alcançaram patamares impressionantes, equivalendo a cerca de 7% do produto interno bruto do país — um nível comparável à contribuição do setor turístico, historicamente um pilar da economia marroquina. Este fenômeno reflete a magnitude da diáspora alauita, que se tornou a maior do norte da África, com aproximadamente 3,6 milhões de pessoas residindo fora do país, o que representa quase 10% da população total de Marrocos.

Os números revelam a força contínua dessa corrente de transferências. Em 2025, os migrantes marroquinos enviaram mais de 11 bilhões de euros para casa — um crescimento de 2,6% em relação ao ano anterior. Ainda mais expressivo, o período de janeiro a junho de 2026 registrou um aumento de 9,9% nas remessas, sinalizando que essa tendência segue em aceleração. França lidera como principal origem dessas transferências, seguida pela Espanha, que aparece como segundo maior contribuinte, além de Itália e Bélgica. Juntos, estes quatro países concentram 80% de toda a diáspora marroquina.

Para as famílias marroquinas, esse fluxo de recursos funciona como um amortecedor econômico fundamental. O dinheiro fortalece as reservas de divisas do país, estabiliza a economia nacional, sustenta o orçamento de milhões de famílias e alimenta o consumo interno. Reconhecendo a importância estratégica dessas conexões, o governo marroquino lançou o Fundo de Investimento Marroquíes do Mundo (MDM), uma iniciativa voltada a canalizar os poupanças dos emigrantes para setores prioritários, transformando remessas pessoais em investimento produtivo.

O contexto econômico mais amplo revela por que essas transferências adquiriram tal relevância. Marrocos apresenta uma trajetória de crescimento consistente acima da média europeia, com expansão anual média de 3,5% desde o início dos anos 2000 e um desempenho de 4,9% em 2025 — o melhor resultado da última década. Esse desenvolvimento é visível especialmente na costa, de Casablanca a Tânger, onde infraestruturas modernas transformam a paisagem: autopistas de última geração, a primeira ferrovia de alta velocidade do continente africano, e expansão portuária sem precedentes. O porto de Tânger Med tornou-se o principal terminal de contêineres do Mediterrâneo, movimentando mais de 10 milhões de contêineres anualmente, enquanto Marrocos prepara novos portos em Nador e Dakhla para potencializar sua posição como hub logístico global.

Este desenvolvimento atrai investimento estrangeiro significativo. Mais de 350 empresas espanholas já se instalaram no país, concentrando-se em energia, infraestruturas, indústria automotiva, setor financeiro e tecnologia. A perspectiva de sediar a Copa do Mundo de 2030 funciona como catalisador adicional, com o governo criando regimes fiscais especiais para atrair negócios internacionais e o setor digital espanhol mostrando interesse particular em expandir operações marroquinas.

Contudo, este retrato de progresso econômico convive com desigualdades profundas que permanecem como desafio central. O desemprego geral permanece acima de 13%, mas entre jovens de 15 a 24 anos — a geração que protagoniza crises migratórias — alcança alarmantes 36%. Além disso, um quarto desta faixa etária nem estuda, nem trabalha, nem recebe formação profissional. A disparidade regional é igualmente preocupante: enquanto apenas 3% da população urbana vive em pobreza severa, este índice ultrapassa 13% nas áreas rurais. O governo implementa programas para erradicar habitações precárias, mas uma transformação dessa magnitude demanda tempo.

Este contraste — crescimento macroeconômico robusto combinado com desigualdade e oportunidades limitadas para segmentos da população — explica por que a migração continua vibrante em Marrocos. Para muitos jovens, especialmente aqueles fora dos centros urbanos, buscar melhores condições de vida no exterior permanece como alternativa viável. Paradoxalmente, a saída desses cidadãos e o dinheiro que enviam de volta tornam-se alicerces da estabilidade econômica nacional. Assim, Marrocos segue em uma trajetória de desenvolvimento acelerado, mas enfrenta a tarefa urgente de distribuir seus ganhos de forma que alcance todas as regiões e gerações, reduzindo as pressões migratórias que, ainda que benéficas pela via das remessas, refletem aspirações não realizadas internamente.

Fonte: La Vanguardia ↗
Este é um resumo original. Leia a matéria completa no veículo de origem.
espaço reservado para anúncio