Restauração de ecossistemas emerge como defesa poderosa contra incêndios florestais na Grã-Bretanha
Pesquisadores mostram que rewilding planejado torna paisagens mais úmidas e resistentes ao fogo, reduzindo severidade de incêndios em vez de agravá-los.

A maioria dos incêndios florestais na Grã-Bretanha é causada por pessoas, não por fenômenos naturais. Mas um novo olhar sobre como preparar a paisagem para enfrentar esses incêndios está mudando a conversa: restaurar ecossistemas naturais funcionais pode tornar as terras significativamente mais resistentes ao fogo. Pesquisadores da Universidade de Manchester argumentam que o rewilding – a recuperação planejada de habitats selvagens – não deve ser visto apenas como problema de combustão, mas como parte essencial da resiliência climática.
Por séculos, as terras altas britânicas foram moldadas por drenagem, pastoreio, queimadas rotacionais e outras práticas humanas. Registros de turfa revelam que há mil anos essas áreas teriam sido muito mais úmidas, com musgos que retêm água. Atualmente, cerca de 80% das turfeiras da Inglaterra estão secas e degradadas, enquanto apenas 1% é dominado por espécies retentoras de água como o musgo Sphagnum. Essa secura extrema transforma a vegetação rasteira em combustível: a urze seca propaga fogo pela superfície e, se a turfa estiver excepcionalmente seca, queima profundamente no solo rico em carbono.
A restauração da umidade é estratégia central. Bloqueando drainagens, cobrindo turfa nua e reintroduzindo musgos que retêm água, é possível manter a umidade no solo e reduzir drasticamente a combustão profunda. Um caso real o ilustra: após incêndio florestal na Escócia em 2019, as áreas de turfa degradada queimaram com maior severidade, enquanto a vegetação em pântanos restaurados e mais úmidos provou ser muito mais resiliente. Pesquisas no Canadá e norte europeu confirmam que a restauração de umidade reduz significativamente o risco de incêndios intensos nas camadas profundas.
Outra abordagem envolve rios e sistemas hídricos. Historicamente, os rios das terras altas britânicas foram drenados e retificados, acelerando a saída de água. Pesquisas sugerem que restaurar meandros naturais, reconectar planícies de inundação e recuperar terras úmidas cria barreiras naturais ao fogo. Corredores fluviais mais úmidos interrompem áreas contínuas de combustível e oferecem refúgios para vida selvagem. Na região dos North York Moors, seis diques de castores aumentaram o armazenamento de água em épocas secas. Estudos de megaincêndios na América do Norte mostram que rios com diques de castor queimam menos severamente.
A diversidade de grandes herbívoros também desempenha papel crucial. Gado, cavalos, veados e bisões criam paisagens mais heterogêneas ao pastar e pisar no solo, produzindo lacunas que desaceleram a propagação do fogo. Atualmente, a Grã-Bretanha perdeu a maioria de suas comunidades diversas de grandes herbívoros, substituindo-as principalmente por ovelhas em altas densidades. Análises de mais de 26 mil incêndios na Espanha mostram que florestas de folhas largas têm risco de ignição muito menor, enquanto florestas de pinheiros e arbustos são mais vulneráveis. Sob condições extremas de incêndio, florestas de folhas largas reduziram significativamente a intensidade.
A Grã-Bretanha perdeu a maioria de suas florestas nativas: apenas 14% do território é florestado hoje, e metade disso é plantação comercial de coníferas. O ecologista Oliver Rackham observou que “florestas nativas inglesas queimam como amianto molhado” – ou seja, quase não queimam. Restaurar essas florestas é fundamental, mas o rewilding não é abandono; exige ação cuidadosa para restaurar processos naturais enquanto os ecossistemas se reorganizam em estados resilientes. A comunidade também é essencial: prevenção de ignições, monitoramento intensivo e detecção precoce devem gerenciar riscos durante a transição. Quando visto como infraestrutura de resiliência nacional, o rewilding inteligente – restaurando pântanos, rios, florestas e animais selvagens – torna incêndios menos propensos a virar desastres em escala de paisagem.