Saúde

SUS pode ganhar primeira injeção de longa duração para prevenir HIV

Ministério da Saúde solicita incorporação de medicamento injetável que oferece proteção por dois meses e é mais eficaz que comprimido diário.

29 de julho de 2026

SUS pode ganhar primeira injeção de longa duração para prevenir HIV
Foto: NathanF (BY) via Openverse

O Brasil está próximo de oferecer uma alternativa revolucionária na prevenção do HIV pelo Sistema Único de Saúde. O Ministério da Saúde anunciou sua intenção de solicitar a inclusão do cabotegravir na rede pública — um medicamento injetável de longa duração que, se aprovado, será a primeira opção desse tipo disponível gratuitamente no país. O anúncio foi feito durante a Conferência Internacional de AIDS no Rio de Janeiro, sinalizando um compromisso com a modernização das estratégias de prevenção.

O cabotegravir funciona de forma diferente dos tratamentos preventivos atuais. Em vez de exigir a ingestão diária de comprimidos, o medicamento é administrado por injeção nos primeiros dois meses e depois passa a ser aplicado a cada dois meses. Essa mudança de formato resolve um dos maiores desafios enfrentados pelos programas de prevenção: a dificuldade que muitas pessoas têm em manter uma rotina diária de medicação. Para quem trabalha em horários irregulares, vive em regiões remotas ou simplesmente enfrenta barreiras práticas, esse sistema de doses espaçadas representa uma abertura real de acesso à proteção.

Os dados de efetividade são promissores. Ensaios clínicos conduzidos em vários países, incluindo o Brasil, demonstraram que o cabotegravir é aproximadamente 69% mais eficaz que a PrEP oral — o comprimido de prevenção usado atualmente — na proteção contra a infecção pelo HIV. A Organização Mundial da Saúde já recomenda o medicamento, e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária aprovou sua comercialização no Brasil em 2023. Desde agosto de 2024, o fármaco está disponível no mercado privado sob o nome comercial “apretude”, com preço aproximado de R$ 4 mil por aplicação — um valor que coloca a maioria dos brasileiros fora do alcance, reforçando a importância de sua inclusão no SUS.

A proposta agora será analisada pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS, a Conitec, órgão responsável por avaliar a viabilidade de novos medicamentos no sistema público. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, justificou a solicitação afirmando que ampliar as opções de prevenção significa oferecer caminhos reais para pessoas cujas circunstâncias tornam difícil seguir esquemas medicamentosos complexos. Essa diversidade de ferramentas é reconhecida internacionalmente como essencial para combater epidemias em cenários variados.

Atualmente, a prevenção do HIV pelo SUS funciona principalmente por meio da PrEP oral, um comprimido que exige tomada diária por pessoas com maior risco de exposição. Embora eficaz, esse modelo enfrenta limitações de adesão. A PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) é indicada para grupos com chances elevadas de contato com o vírus — como profissionais do sexo, pessoas trans e travestis, homens que fazem sexo com homens e parceiros sorodiscordantes. O medicamento prepara o organismo para impedir que o vírus se estabeleça caso haja exposição, mas não trata quem já vive com HIV nem oferece proteção contra outras infecções sexualmente transmissíveis, razão pela qual especialistas recomendam seu uso associado ao preservativo e ao acompanhamento médico contínuo.

O horizonte pode ser ainda mais ambicioso. Durante o mesmo anúncio, o Ministério da Saúde revelou que também negocia a incorporação do lenacapavir, outro injetável que seria aplicado apenas duas vezes ao ano — uma frequência ainda menor. Contudo, o preço solicitado pela fabricante continua elevado demais para as possibilidades orçamentárias do SUS no momento, tornando essa negociação mais complexa. Ainda assim, a abertura para diálogos sobre essas tecnologias demonstra uma estratégia clara de ampliar e modernizar o acesso à prevenção.

A aprovação do cabotegravir pelo SUS representaria um marco importante na história da saúde pública brasileira. Colocaria o país na vanguarda do acesso equitativo a tecnologias de prevenção de ponta, alinhando-se com recomendações internacionais e reconhecendo que diferentes pessoas precisam de diferentes ferramentas para se proteger. Para muitos brasileiros, especialmente aqueles com dificuldades de adesão a medicações contínuas, essa injeção a cada dois meses pode ser a diferença entre estar protegido ou vulnerável. O próximo passo depende da avaliação técnica da Conitec, mas o momentum está criado e o compromisso político foi demonstrado.

Fonte: Só Notícia Boa ↗
Este é um resumo original. Leia a matéria completa no veículo de origem.
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