Inteligência artificial desenvolvida na Unicamp revoluciona diagnóstico de parasitas em dezenas de laboratórios do país
Tecnologia criada por pesquisadores da Unicamp automatiza exames parasitológicos e já funciona em mais de 60 laboratórios, incluindo unidades em Manaus, Brasília e São Paulo.

Um avanço significativo na medicina diagnóstica brasileira vem ganhando espaço nos laboratórios do país: a automação de exames parasitológicos por meio de inteligência artificial. Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolveram um sistema inovador que substitui os tradicionais testes manuais de fezes por análises computacionais precisas, aumentando a confiabilidade e a velocidade dos diagnósticos. Essa transformação representa um salto tecnológico particularmente importante porque a maioria dos laboratórios brasileiros ainda depende de métodos centesimais, executados basicamente da mesma forma há mais de cem anos.
O desenvolvimento começou na década de 2000, quando pesquisadores da Unicamp iniciaram uma série de investigações para criar técnicas mais eficazes do que a sedimentação espontânea acompanhada de leitura visual manual — métodos que, apesar de tradicionais, são frequentemente suscetíveis a erros humanos e falta de precisão. Dessa pesquisa surgiram quatro tecnologias distintas que convergiram em duas soluções principais: o TF-Test (Three Fecal Test) e o DAPI (Diagnóstico Automatizado de Parasitos Intestinais). Essas inovações foram licenciadas pela startup Immunocamp, empresa coirmã do grupo Bio Brasil Ciência e Tecnologia, responsável por industrializar e comercializar as soluções em laboratórios públicos e privados.
O TF-Test é um protocolo laboratorial que se diferencia pela simplicidade de uso e pela precisão elevada na coleta e processamento de amostras fecais. O nome “Three” (três, em inglês) revela a estratégia central da tecnologia: enquanto os testes tradicionais coletam apenas uma amostra de fezes, o TF-Test faz três coletas em dias alternados. Essa abordagem compensa uma limitação fundamental dos métodos convencionais: os parasitos intestinais são eliminados de forma inconstante pelas fezes, o que reduz a sensibilidade do exame em cerca de 20%. Com as três coletas, a precisão aumenta significativamente. Além disso, o sistema inclui tubos especiais para coleta em campo, um protocolo de laboratório padronizado, filtragem por centrífugo-sedimentação, capacidade de preservar amostras por até 30 dias sem refrigeração e um conservante que não prejudica as formas parasitárias — um diferencial importante que também elimina problemas com odores desagradáveis.
O segundo pilar da solução é o DAPI, um sistema de leitura e análise de imagens que funciona como leitor automático dos exames preparados pelo TF-Test. É aqui que a inteligência artificial entra em ação de forma determinante. O DAPI utiliza algoritmos computacionais e ferramentas de IA para analisar as imagens das amostras com elevada precisão, reduzindo drasticamente as falhas associadas à interpretação manual. Segundo os desenvolvedores, o sistema proporciona diagnósticos muito mais confiáveis e menos sujeitos aos erros dos procedimentos visuais — uma vantagem que já recebeu aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e foi apresentada em feiras e congressos internacionais.
Os números concretos mostram que a tecnologia já está operacional em escala significativa. Em Manaus, o Laboratório Municipal — o maior laboratório público do estado do Amazonas — conta com 12 máquinas em funcionamento que realizam aproximadamente 27 mil exames por mês. Em Brasília, cerca de 14 máquinas estão sendo homologadas pelo governo do Distrito Federal e em breve iniciarão operações. Na esfera privada, o laboratório AFIP Medicina Diagnóstica, localizado junto à Escola Paulista de Medicina em São Paulo, já adota quatro máquinas do sistema. No total, o TF-Test está sendo utilizado em mais de 60 laboratórios de referência em todo o Brasil.
O impacto dessa inovação vai além da precisão diagnóstica. A tecnologia abre possibilidades de descentralização dos serviços: pequenos e médios laboratórios podem terceirizar seus exames parasitológicos para centros que possuem o DAPI, enviando as amostras preparadas com o TF-Test para análise remota. Isso potencialmente democratiza o acesso a diagnósticos de qualidade em regiões onde a infraestrutura laboratorial é limitada. Para o paciente, o benefício é direto: testes mais precisos, resultados mais confiáveis e contribuição para um diagnóstico clínico mais seguro.
Os pesquisadores responsáveis pelo desenvolvimento — Jancarlo Ferreira Gomes (Faculdade de Ciências Médicas e Instituto de Computação) e Alexandre Xavier Falcão (Instituto de Computação) — coordenaram a pesquisa com apoio financeiro do programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A Unicamp protegeu a propriedade intelectual das tecnologias através da Agência de Inovação Inova Unicamp, garantindo que a universidade mantivesse controle sobre suas criações enquanto facilitava a comercialização responsável.
Os passos futuros apontam para uma ambição ainda maior. Conversas já foram iniciadas com o Ministério da Saúde para integrar a tecnologia ao Sistema Único de Saúde (SUS). Duas reuniões já ocorreram em Brasília, e pesquisadores estimam que o processo de aprovação e implantação pode levar cerca de um ano — um cronograma longo mas promissor para democratizar o acesso a diagnósticos parasitológicos de qualidade em toda a rede pública de saúde. Paralelamente, está em desenvolvimento uma terceira tecnologia baseada em Flotação por Ar Dissolvido (FAD), que promete aprimorar ainda mais os resultados dos exames parasitológicos intestinais.